Sobre a diferença

A natureza humana apresenta, muitas vezes, atitudes difíceis de entender. Como explicar, por exemplo, o fato de tanto o judeu na sinagoga quanto o árabe na mesquita pregarem o amor universal, mas fora de seus sagrados oráculos praticarem a guerra? Por que, na Irlanda do Norte, católicos e protestantes insistem em permitir que a intolerância e o ódio dominem seus corações, deixando obscurecer seu campo mental?

Existem vários significados para a palavra diferença. Entre eles, estão os termos alteração, diversidade e transtorno. Note-se que o último virou sinônimo de diferença apenas devido à inabilidade das pessoas em lidar com o diferente, em aceitar as mudanças que naturalmente ocorrem na sociedade e na cultura. O que agora é aceito como normal e justo, depois de um tempo pode não o ser, dependendo isso das injunções e pessoas envolvidas; se não fosse assim, poderíamos estar vivendo ainda hoje sob a égide da era vitoriana, por exemplo, com o seu puritanismo, o que seria um desastre.

Cada indivíduo desenvolve-se diferentemente dos demais, inclusive no aspecto financeiro, contudo as condições e as oportunidades para que tal desenvolvimento se efetive deveriam ser, pelo menos, semelhantes. Isto soa utópico e, neste ínterim, talvez Hobbes tenha um pouco de razão ao afirmar que o homem é o lobo do homem.

Entre os homens tem-se como padrão combater o diferente e, como exceção, aceitá-lo. A Psicologia nos diz que a agressividade é um dos fatores constituintes do ser humano e que este extravasa seus instintos através dela. Quando olhamos para a clave do longínquo hominídeo, aceitamos com naturalidade que o nosso antepassado andasse armado e achamos que isso faz parte do nosso passado, o qual já “superamos” ou que “evoluímos”. Vã ilusão. Por quê? Porque estamos em pleno Século XXI, 300 anos após o chamado “período das luzes”, e continuamos a não controlar nosso subcérebro reptiliano, haja vista as guerras de todos os tipos – individuais, familiares, comerciais, internacionais, ideológicas etc. – que continuam a acontecer. O Cro-Magnon dentro de nós está tão atuante quanto antes.

Uma das principais causas da agressividade é o medo originado daquilo que possa abalar nossa estrutura física (um cão raivoso, por exemplo) ou psíquica (isto é, fatos ou idéias que confrontem nossa visão de mundo). Quanto ao primeiro medo, é aceitável, pois pertence ao instinto de autopreservação. Mas quanto ao  segundo, somente às almas imaturas é permitido tal sentimento, porque ainda não estão esclarecidas ou não aceitam o fato de que os lugares, as pessoas, os tempos, as idéias, as vivências são diferentes. A existência, em seu conjunto, é uma só (Unidade); entretanto, todos os entes que nela vivem se expressam de forma singular (Diversidade). É infantil, para não dizer outra coisa, pretender que nossos colegas de destino vivam de acordo com as nossas convicções e não com as deles mesmos.

A intolerância religiosa é um perfeito espelho do nível de ignorância ainda presente na humanidade e de seu despreparo ecumênico. Devemos permitir que as diferenças coexistam e não tentar exterminá-las. Hoje temos Jesus e nasce o cristianismo; amanhã, surge Maomé e o islamismo; mais alguns séculos e os seguidores de ambos esquecem as palavras de seus mestres e põem-se a se digladiar.       

Não precisamos ficar inseguros diante daquilo que é diferente, estigmatizando-o, mas antes de mais nada fazer o exercício de aceitá-lo[1] e com ele coexistir. Segundo o ditado, um jardim fica mais bonito e rico quanto mais flores diferentes nele houver. A vida tende para a pluralidade, para a diversidade. Por que, então, essa mania de tudo uniformizar? Caros amigos, um dos nossos lemas na vida deve ser: vive la différance!


[1] Aceitá-lo dentro de limites, é claro: se meu vizinho tem como prática habitual roubar e eu não, jamais aceitarei essa condição só porque ele é diferente de mim.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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