Referências ou reverências bibliográficas?

Neste escrito original questiona-se uma diretriz de pesquisa adotada pela maioria das instituições de ensino, a referência bibliográfica, a qual, quando aplicada cegamente, solapa a criatividade dos seus alunos, transformando-os, no máximo, em meros retransmissores de ideias alheias, por não levar em consideração o que mais interessa: seu interesse pelas obras.

Muitas vezes, as escolas – talvez por fazerem parte das instâncias normativas sociais (e, portanto, até certo ponto conservadoras)– aplicam técnicas contrárias ao seu discurso explícito: o desenvolvimento da singularidade do aluno e a consequente expansão das realizações humanas.

A desconfiança é uma velha conhecida do homem. Forma de autopreservação, essa característica remonta aos primórdios da espécie, pois o primitivo, nem sempre portador de um viés esclarecido, logo aprendeu que confiar demais nos semelhantes ou assimilar novidades muitas vezes chocava-se com seus interesses. Hoje, o tradicionalismo (elemento antropológico) ainda teima em continuar disseminado em vários discursos, inclusive no científico. Neste, reveste-se sob diversas formas, umas delas representada pelo insuspeito(?) reducionismo acadêmico, cujo mote principal é: “repetir, não criar”.

Analisando o exemplo prático citado no primeiro parágrafo (as referências bibliográficas), a qual é um dos componentes da atual metodologia onipresente no círculo acadêmico – pergunta-se: até que ponto um escrito, para ser considerado científico, obrigatoriamente deve fazer referência(s) a outro(s)?

Anarquista, indisciplinado, dissidente, iconoclasta, não-conformista, niilista, inúmeros são os epítetos atribuídos pelas instituições sociais àqueles que procuram ser originais em sua atuação. Ao expor e propor coisas novas ao legado da tradição, na maioria das vezes os arautos da vanguarda – os Copérnicos e Galileus de todas as épocas – deparam-se com as barreiras que naturalmente vão se forjando em torno das jurisdições detentoras do poder, porque estas possuem um campo próprio1 de atuação, portanto, dependente de estratégias defensivas e de controle, semelhantes às aplicadas nos cuidados com a propriedade privada e do Estado.

A educação, integrante e reflexo do contexto sócio-econômico-cultural (o qual, apesar de toda verborragia, dá primazia à ortodoxia e à uniformidade), muitas vezes acaba por cercear a criatividade dos alunos ao tentar enquadrá-los a qualquer custo na metodologia adotada como científica e “oficial”. É claro que a linguagem científica deve possuir um forte conteúdo racional e estruturado (um texto científico não é um romance) e que as práticas didático-pedagógicas devem ter um núcleo normativo que oriente o processo de ensino-aprendizagem, pois em qualquer campo de atuação é necessário um mínimo de ordenamento. Porém, por sua própria natureza burocrática, este núcleo tem a tendência de se cristalizar, engessando possíveis avanços; senão, de onde viria o comentário (até que ponto apenas jocoso?) que afirma ser a escola uma formadora de papagaios em série?

A referência bibliográfica é um bom exemplo do que estamos tentando transmitir aqui. Ela usualmente é fonte de clareza e enriquecimento para as ideias transmitidas num escrito, principalmente os trabalhos de natureza estatística e sistemática, os quais são forjados a partir da coleta e classificação do que já foi dito a respeito de algum problema. Contudo, quando extrapola seu intento, a referência transforma-se em reverência, herança do magister dixit clerical.

Obrigatoriedade rima com originalidade apenas na pronúncia. Para que a cultura realmente se pluralize, as instituições de ensino e pesquisa de todos os níveis e segmentos deveriam rever a imposição da norma bibliográfica, passando esta a ser uma proposição. Devemos ampliar o espaço dado à criatividade dos alunos, facilitando a expressão de sua singularidade através da produção de ensaios mais “livres”, se quisermos alterar
o fato de a maioria dos trabalhos dos discentes serem na verdade um resumo das ideias combinadas de vários autores (uma espécie de plágio).

Para mostrar que não sou adversário das referências bibliográficas – apenas sou contrário a qualquer tipo de exacerbação a esse respeito -, faço esta, lembrando Emerson: “(…) o mérito supremo que atribuímos a Moisés, Platão e Milton deve-se ao fato de eles haverem desprezado livros e tradições, e terem expressado não o que os homens, mas o que eles próprios pensavam”.

“REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS”

CERTEAU, Michel de; A Invenção do Cotidiano – Artes de fazer; 351 p.; Petrópolis; Editora Vozes; 1994.

EMERSON, Ralph Waldo; Ensaios; 249 p.; Rio de Janeiro; Editora Imago; 1994.

1 Conceito defendido por Michel de Certeau (ver bibliografia).

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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