O Educar

Intrincados problemas matemáticos se tornam simples quando se descobre a abordagem correta para resolvê-los. Quanto mais ampla a análise de uma situação, obviamente as chances de entendê-la serão maiores. Aqui se inclui o estudo de alguns aspectos da problemática educacional.

Por que pessoas da mesma classe social, da mesma família (inclusive os gêmeos) apresentam rendimento escolar tão diferentes? Por que Maria é brilhante e sua irmã não? Se as explicações culturais e genéticas pautadas no paradigma cartesiano-fisicalista não são capazes de satisfazer completamente essa questão, devemos expandir o alcance de nossas pesquisas, deixando o apriorismo para trás.

Os resultados apresentados por nossos sistemas de ensino são considerados insatisfatórios pela maioria dos experts em educação. Vemos que esse descontentamento generalizado dá-se, sobretudo, devido ao enfoque puramente materialista operante há três séculos na cultura Ocidental, o qual considera que a existência da consciência humana é diretamente proporcional apenas ao tempo de funcionamento do corpo físico. Pensando dessa maneira, é natural que o estudioso – por continuamente esbarrar em problemas que fogem à sua compreensão – fique angustiado à procura de algum procedimento que possa solucionar profundamente os problemas educacionais e, por ressonância, os sociais.

O ser humano, de acordo com o paradigma consciencial1, antes de pertencer a uma dada cultura, é uma singularidade da natureza, sujeita a um processo evolutivo pluriexistencial. Nele, o indivíduo contrasta suas vivências e percepções com as dos semelhantes, enriquecendo e aprofundando o autoconhecimento.

A partir dessa premissa, a qual para muitos é fato e não crença, podemos refletir sobre o papel da educação, verificando suas limitações intrínsecas, as quais inviabilizam qualquer projeto didático-pedagógico que procure solucionar definitivamente problemas que estão fora do escopo do ensino oferecido dentro ou fora das escolas.

Abandonando o ideal do Renascimento que buscava uma formação humanista e multidisciplinar, o Ocidente adotou o paradigma reducionista e fragmentou o conhecimento em inúmeras “especialidades”. Tal fato, junto com o advento do Capitalismo e sua busca alucinada por lucro e acumulação de dinheiro, subjugando toda a existência ao seu aspecto puramente mercantil, propiciou o surgimento do atual Homo economicus “alienadus”, ou seja, aquele sujeito portador de conhecimentos técnicos específicos (de Engenharia Genética ou Mecatrônica ou Direito Internacional ou Psicologia de Marketing ou …) que, por não ter maiores questionamentos existenciais, se realiza com uma condição de semi-cultura, com o consumismo, com a busca pelo status, tornando-se presa fácil dos manipuladores de plantão, sendo assim absorvido pela Indústria Cultural, tão bem descrita por Adorno e seus colegas de Frankfurt.

Na verdade, este perfil é o ponto médio de dois extremos, cada qual com suas características. Numa ponta está a elite, com seu egoísmo doentio e descarada vocação para a exploração; na outra, a massa assalariada, com seu natural ressentimento e sonhos de melhores condições de vida. Diante desse quadro, perguntamos: qual o sistema pedagógico que resolveria por completo este misto de alienação, egoísmo e ressentimento? Comênio, Rousseau, Herbart, Dewey, Piaget e Dilthey elaboraram louváveis sistemas que estimulam o desenvolvimento cognitivo do indivíduo, contribuindo para que ele ou se ajuste à sociedade ou procure transformá-la. Mas é certo que, por mais perfeito que seja um sistema educacional, ele por si só não garante a consecução dos seus objetivos, devido à complexidade da matéria-prima com que trabalha: a natureza humana. O professor pode e deve aplicar os mais variados métodos para que os alunos assimilem habilidades e conhecimentos, mas não há nenhum que consiga realizar plenamente sua função se seus ensinamentos não fizerem eco na mente do aluno, se, sempre que aquele procura ensinar Ciências, este apenas pensa no presente de aniversário, no jogo de futebol ou – dependendo da idade e do tipo de brinquedo correspondente – nas oscilações da Bolsa de Valores.

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Aqui está o ponto crucial. O aluno, por ainda ser uma consciência imatura, acaba quase sempre apresentando as características da classe social na qual está circunstancialmente inserido, até que, no transcurso de sua existência enquanto ser multimilenar, ocorra, gradativamente, uma “virada”, um turning point em sua conduta, passando ele a questionar de forma crescente
a vida e o papel que deve desempenhar diante dela. Assim, a busca pelo autoconhecimento faz aparecer, de forma verdadeira, os tão almejados quesitos do autodidatismo, da capacidade de abstração e raciocínio lógico, da independência intelectual, da solidariedade, da ética, da busca pela transcendência, enfim, daquilo que diferencia os alunos “exemplares” daqueles nem tanto. Dessa forma, surgem também as condições indispensáveis para que sejam superados, conforme a situação social, o egoísmo (elite), a alienação (Homo economicus) ou o ressentimento (massa assalariada).

Estas considerações ficariam incompletas se não apresentássemos algumas sugestões de melhoria da dinâmica educativa na nossa cultura ocidental, pois não devemos nos ater apenas às facetas “não-positivas” de alguma problemática. Vejamos:

  • A sociedade de consumo exerce uma pressão imensa no professor, jogando em suas costas a responsabilidade quase total pela educação das crianças, sendo que esta tarefa deve ser prioridade dos pais, os quais deveriam considerar o professor tal qual um auxiliar no processo educativo global. Os pais possuem filhos-alunos; os professores, apenas alunos. O professor instrui através do ensino de habilidades
    e conhecimentos acumulados pela humanidade, geralmente para um contigente não inferior a 30 alunos; assim, fica incapacitado para personalizar o ensino de acordo com as singularidades de aprendizagem de cada criança. Já os pais, se estiverem dispostos, podem propiciar aos filhos a atenção que precisam, educando-os nos pontos fundamentais da cidadania (ética, solidariedade, senso crítico, consciência ecológica e política, aprofundamento cultural, entre outros).
  • A cultura ocidental é, historicamente, muito dependente da noção de causa e efeito, negligenciando, portanto, o aspecto espontâneo da vida. Isso, no âmbito pedagógico, reflete-se na excessiva preocupação com aquilo que pode ser sistematizado e explicado com base na racionalidade, ou seja, no caráter intencional da educação. Deveríamos contrabalançar este procedimento, estimulando os alunos de todas as idades a prestarem mais atenção nas situações de aprendizagem não-intencionais com que o dia-a-dia nos presenteia. Muitas vezes uma paisagem, um belo sorriso, uma conversa inesperada falam mais a nós do que a leitura de textos pesados ou o domínio de fórmulas complicadas.
  • É ponto pacífico haver lacunas na escolha das matérias de ensino. Filosofia, Ecologia, Saúde, Política, Artes, Relações Humanas, enfim, o desenvolvimento do cidadão cultural é preterido em favor da formação em série de autômatos técnicos ávidos pelo vendaval de superficialidades que a “cultura jornalística” – duramente criticada por Nietzsche – apresenta.

Diante do exposto, não devemos exigir da Pedagogia
e da Didática aquilo que elas, por si só, não são capazes de realizar. Isso, obviamente, não deve justificar a paralisação do aperfeiçoamento das formas de ensino. Apenas pontuamos que talvez seja perda de tempo tentar desenvolver, com sofreguidão, uma “fórmula milagrosa” para resolver todos os problemas didático-pedagógicos, porque estes são diretamente proporcionais ao nível evolutivo dos professores e alunos. Em matéria de maturidade consciencial, nada pode ser determinado com precisão, nem os resultados do processo educativo.

1 Paradigma, formulado por Vieira, que tem como um dos seus pressupostos a pluriexistencialidade, que é a condição das várias existências físicas nas quais a consciência experimenta os mais diversos ambientes culturais e condições sociais, necessários para sua evolução. Sinônimo: reencarnação. Ver: Vieira, Waldo;
700 Experimentos da Conscienciologia; IIPC; 1994.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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