O Amor

O único alquimista e transformador que a tudo transforma em ouro é o amor. A única mágica contra a morte, o envelhecimento e a vida trivial, é o amor. *

Escrever sobre o amor é difícil, com amor é fácil. Isto porque, quando discorremos sobre este sublime sentimento, temos que nos distanciar para tentar “explicá-lo”, alicerçando-nos em definições e conceitos por demais abstratos, racionais. O amor, visto pelos olhos do intelecto, torna-se oco, platônico, spinozista; a maioria prefere aquele dos amantes apaixonados, tão proclamado pelos poetas. Por quê? Porque o amor, quando vivenciado da forma mais espontânea e autêntica possível, torna-se a coisa mais concreta do mundo, confundindo-se com a própria existência. É por isso que, quando amamos e somos correspondidos, nos sentimos tão vivos, completos, ou melhor, complementados.

Classificaram o amor em três patamares: Eros, Philos e Ágape. O primeiro diz respeito àquilo que já na adolescência nos iniciamos: troca de olhares furtivos, coração acelerado, gestos sensuais, pensamento ininterrupto na pessoa amada. Nele deixamos transcorrer livremente o jugo da natureza, que é a consumação da paixão entre dois “animais”, como lembra Schopenhauer (Metafísica do Amor). Tal consumação é capaz de romper qualquer convenção social, fazendo os amantes cometerem “loucuras de amor”, inclusive o suicídio. Sim, de Shakespeare às Soap Operas, de Beethoven ao cancioneiro, Eros mostra sua onipresença e, para (quase) todos, sua onipotência.

Com o tempo e para não muitos, um outro círculo se abre, no qual Philos traz em seu bojo as tão apreciadas qualidades do companheirismo, solidariedade, compaixão, confluência de interesses, fazendo do relacionamento uma antecâmara para uma possível irrupção de Ágape, aquele amor sobre o qual nada podemos verbalizar, sob o risco de profaná-lo, já que apenas os Iluminados parecem possuí-lo, ou melhor, por ele são possuídos, pois, nas palavras de Paulo Coelho (O Diário de um Mago), ele é “o amor que devora”.

Voltando ao início deste ensaio, minha indagação continua: o que posso falar sobre o amor? Quando flechado pelo Cupido ou nas raras vezes em que Philos parece me visitar, sou capaz de produzir expressões mais belas do que o normal, mas somente para a mulher amada e não de âmbito geral. O amor não se comenta, se vivencia. Não cabe em palavras; elas estão contidas nos apetrechos do amor e não o contrário.

Por isso sou forçado a reconhecer que estas linhas são as mais difíceis que já me propus a escrever. Há muito tenho relutado em falar sobre o amor, porém, por ser ele o âmago da vida – sem o qual, segundo São Paulo, “nada seríamos” – não poderia deixar de, ao menos, tentar abordá-lo mesmo que de forma breve e, inescapavelmente, superficial. Mas basta de mea-culpa.

Para mim, o ponto mais intrigante da experiência amorosa refere-se às (não tão) ocasionais justaposições de Eros e Philos num relacionamento e, de forma mais acentuada (por isso, mais conflitante), quando terceiros são envolvidos: no início, Eros é dominante, passando o cetro, aos poucos, para Philos; se for um pseudo-Philos, abre-se a fenda por onde o Eros de uma(s) outra(s) pessoa(s) infiltra-se, e aí tem-se o famoso trio (em alguns casos quarteto ou quinteto) amoroso, e aí se tem toda sorte de tribulações, e aí se faz jus ao Canto de Ossanha, de Vinícius: “Pergunte pro seu orixá, o amor só é bom se doer”.

E por que essa dor seria “boa”? Talvez porque (só) assim compreendemos a natureza egoísta do amor erótico, o qual reduz o mundo ao objeto “amado”. Sim, objeto e não pessoa amada. Pessoas não são descartáveis, mas objetos sim e é isso o que mais notamos no campo dos relacionamentos amorosos nesta época pós-moderna, onde a “liquefação” de Zygmunt Baumam (Amor Liquido) dá o tom.

Até agora, em minha parca vivência, pude constatar apenas uma verdade amorosa: quanto ao amor, não somos proprietários, mas inquilinos; só seremos verdadeiramente pacíficos e felizes quando nos permitirmos ser perpassados por esse sentimento, pois, na realidade, não amamos mas sim é o Amor que ama a si mesmo através de nós.

  1. The Diary of Ana is Nin, vol. 4 (Harcourt Brace Jovanovich, NY, 1971); pág. 174.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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