Informação

“Da janela do meu quarto abarco o mundo (Lao Tzu).”

Se o Iluminismo elegeu como sua deusa a razão, hoje o mundo fez da informação sua nova divindade. Não importa muito ao homem pós-moderno a qualidade da informação ou o que fazer com ela, mas sim estar informado sobre todos e sobre tudo. Ou quase tudo, porque, em relação a si próprias, a maioria das pessoas mostra-se extremamente desinformada.

A informação, em si, é um bem imprescindível à manutenção e evolução da consciência, ou seja, sem informação não há esclarecimento, não há crescimento. A contemporaneidade, infelizmente, ao preocupar-se em demasia com a natureza objetiva do ato informativo (que vem do mundo para o indivíduo), acabou “esquecendo” o lado subjetivo desse ato (que emerge do indivíduo para o mundo), confundindo, assim, excesso de informação (conhecimento) com a forma mais correta de se usar o que se conhece (sabedoria).

Qual é a essência da informação? O que, exatamente, ela nos fornece? A informação está estreitamente vinculada a dois vetores: com a possibilidade de manipulação do meio circundante (quando consideramos seu aspecto técnico ou simplesmente utilitário); ou com a oportunidade de  aprofundar o autoconhecimento (levando em conta o prisma existencial).

Indivíduo e sociedade saudáveis seriam aqueles que fazem da busca do conhecimento de si o leitmotiv e consideram acessórias as informações de caráter puramente técnico. Seriam pessoas que não teriam dúvida ao dizer o que é mais importante nas perguntas abaixo: consultar três vezes por dia o índice da bolsa de valores ou empenhar-se na resolução de um problema afetivo? Ser um workaholic ou dedicar mais tempo à família e aos amigos? Sempre “torrar” o fim de semana festejando ou periodicamente realizar algum trabalho voluntário? Instruir-se visando apenas ao acúmulo de dinheiro e status ou estudar para compreender melhor as coisas da vida? Gastar todo o tempo em atividades mundanas ou reservar alguns minutos diários para meditar sobre a existência? Procurar única e exclusivamente saciar os apetites e desejos egóicos ou buscar a autotranscendência?

Para ilustrar, façamos um paralelo entre a América e o Tibet. O cidadão médio americano lê jornais, revistas e livros, assiste televisão, vai ao teatro e ao cinema, viaja freqüentemente, navega na internet, possui grau universitário, participa de cursos e congressos, enfim, pode ser considerado um indivíduo “bem informado”.

Já o tibetano – e aqui não estamos falando apenas do monge –  talvez não faça nada disso, ou muito pouco, todavia, em contrapartida, cultiva a espiritualidade muito mais que o americano. Qual dos dois podemos considerar mais feliz ou realizado como ser humano? Mesmo com
a agressão chinesa, são raríssimos, entre o povo do Tibet, males como depressão, delinqüência, suicídio, corrupção e drogas. Enquanto isso, na América…

O Ocidente, por enfatizar o aspecto superficial e técnico da informação ao invés do seu conteúdo existencial, pode assim mercantilizá-la ao extremo, constituindo-se num dos principais alicerces do atual contexto político-econômico. Não é por acaso que a Microsoft (a gigante da informática) e a CNN (a vedete do jornalismo) são ícones da tão badalada “Era da Informação”, que transformou o mundo numa “aldeia” e nós em nativos estupidamente bem informados.

Nada contra Bill Gates e Ted Turner (não queremos desempregar os informatas e os jornalistas!). Pelo contrário, tanto a tecnologia quanto a imprensa, quando bem utilizadas – como qualquer outra coisa – são uma benção, uma conquista da sociedade. Combatê-las seria  neofóbico e anacrônico. A preocupação, aqui, é com a inversão de papéis em relação àquilo que se almeja com a informação: Poder ou pacificação? Status ou altruísmo? Manipulação ou esclarecimento?

Observemos a informática e a imprensa um pouco  mais de perto. Nossa época é materialista, importando apenas aquilo que pode nos munir para o domínio da natureza e das pessoas. Daí o fascínio pela informática, representante maior da tecnologia, do poder de raciocínio lógico do homem. O endeusamento da informação técnica se deu principalmente devido ao surgimento dos computadores. Em seu esteio, a imprensa passou definitivamente a ser o 4º ou, muitas vezes, principal poder, porque, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, pôde aprofundar sua influência junto à população, informando-a conforme interesses muitas vezes obscuros, ou melhor, escusos.

Mas esta influência ficará sensivelmente amenizada quando as pessoas, aos poucos, voltarem sua atenção para aquela informação de qualidade superior e que realmente faz diferença em suas vidas: a que vem de dentro de si mesmas. Romantismo? Escapismo? Não, Realismo, haja vista o exemplo tibetano citado. Por sinal, existe coisa mais previsível do que as notícias de um jornal? Chega um dia em que os fatos – ah, os fatos – políticos, econômicos, policiais, esportivos, científicos etc. ficam tão pequenos diante de realidades maiores, que adquirem uma mesmice secundária e, para os radicais, totalmente dispensável.

Viemos ao mundo, entre outras coisas, para conhecê-lo. Podemos obter muitas informações externas a seu respeito, mas, paradoxalmente, somente iremos entendê-lo em profundidade quanto mais fundo mergulharmos em nosso oceano íntimo, nos “informando” sobre seus mistérios e maravilhas. Parafraseando o imperativo socrático que há 2.500 anos paira sobre nós, podemos afirmar: “Homem, informa-te a ti mesmo”. 

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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