Humanos

Falemos sobre uma das questões que nos acompanha de forma perene: o que, verdadeiramente, é o homem? Deus ou animal? Livre ou condicionado? Por que o homem tem essa necessidade de autodefinição, que parece impossível de ser atingida? Responder por completo essas perguntas talvez não seja mesmo possível; mas não devemos abandoná-las por isso.  

O homem é uma flecha cujo alvo não se sabe onde está. Ou melhor, estará no ponto que ele tiver escolhido, o qual, inevitavelmente, situa-se no limitado campo de sua percepção. Uma das definições mesmas do ser humano é a de que ele é um ser continuamente expansível, que busca – mesmo não o sabendo – transcender-se, ou seja, ampliar os limites de sua percepção. Como, na maioria das vezes, vê frustrada essa intenção, ele tenta “vingar-se”, procurando controlar os semelhantes (uma das fontes da guerra) ou, em menor escala, trancafiar outros seres (originando, assim, a idéia maluca dos zoológicos e suas gaiolas).          

            Para a filosofia, o homem é uma pergunta; para a teologia, uma afirmação; para a arte, uma obra; para a ciência, uma descrição. Afinal, o que significa ser humano? Divino, demasiadamente animal ou animal, demasiadamente divino? Tomara que Nietzsche não tenha se revirado em sua tumba com essa pergunta. Provavelmente não; ele deve estar em algum ponto distante na trajetória do seu eterno retorno…

Como é difícil para nós discorrer sobre nós mesmos! Em qualquer assunto, falamos com eloqüência. Contudo, quando o tema versa sobre nossa natureza, nossa essência e existência, revelamo-nos gagos. Falar dos outros é fácil (com os outros, nem sempre!); falar de mim mesmo é complicado.

Daí o dilema do homem: para se conhecer, deve sair de si; entretanto, ao fazer isso, deixa de ser homem… Quando direcionamos nosso potencial de conhecimento para nós mesmos, temos que superar a dualidade sujeito-objeto. No emaranhado das peripécias metafísicas, isso é até factível. Já no cotidiano …

Alguns chamam a isso de fuga ou desvario, mas prefiro acreditar em minhas próprias experiências e na constatação de que não somos humanos, porém, estamos humanos, isto é, nossa consciência transcende a imanência dos corpos que porventura ocupa. Já estivemos menos do que humanos, agora estamos humanos e nosso destino (que não é determinado, mas possível) é superarmos nossa humanidade, tornando-nos algo que nossas concepções ainda não atingem (talvez o estado crístico ou búdico
dos místicos e religiosos seja não um, mas o norte). É o que também disse Blondel: o homem está na esfera  transnatural da realidade, situada entre a natureza e a supranatureza.

Como afirmou Sartre, estamos condicionados, pela existência, à liberdade. Escolher entre regredir, permanecer na mesma ou superar a si próprio é uma característica do ser humano. É isso que o torna fascinante.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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