Desafio Cultural

É um fato o dilema contemporâneo dos cidadãos e da sociedade em definir seu arquétipo cultural, se mais orientado para a proposta clássico-iluminista aristocrática (humanitas; enciclopedismo) ou para as imposições da especialização capitalista-burguesa democrática (tecnicismo; utilitarismo), sendo notável o impasse com que muitas vezes nos defrontamos quanto à nossa atuação no mundo pós-moderno: como conciliar a vontade e a necessidade particular de expansão cultural com as exigências públicas cada vez maiores da especialização técnica? Pretendo ser somente uma peça eficaz da engrenagem (especialista) ou um estudioso “desligado” desta (generalista)? Um exemplo notório desta problemática: hoje, PhD (Philosophy Doctor) é sinônimo de especialismo e não mais de generalismo.

Tanto o especialismo “míope” quanto o generalismo “teoricão” são limitados. Para integrá-los produtivamente, o indivíduo – alicerçado no autodidatismo – deve começar a abrir o leque de suas vivências e pesquisas, buscando, a partir de sua área de interesse e atuação, ampliar o inter-relacionamento com as demais áreas do conhecimento.


O ideal clássico-iluminista da paidéia, que seria a formação multidisciplinar do homem (tese horizontal), e a práxis burguesa-capitalista, que foi e é a fragmentação do conhecimento e a conseqüente necessidade da formação de especialistas (antítese vertical), culminam hoje num desafio para o indivíduo inserido na pós-modernidade: ser um elemento atuante na sociedade sem ser reduzido pelos reducionismos da mesma
(buscar uma síntese diagonal e não um escapismo tangencial).


Croce diagnosticou com perfeição a situação em que nos encontramos. Segundo ele, atualmente os indivíduos estão limitados a um conjunto restrito de fatos ou perdidos no meio de inúmeros fatos. Em relação a esta última constatação, isso é assim porque muitas vezes a pessoa culta acumula variados tipos de conhecimentos, porém desconexos entre si. Não havendo um fio condutor que possibilite uma aplicação social vigorosa e produtiva do seu saber, a pessoa deixa de transcender seu círculo íntimo de abstrações e de acrescentar um ganho público ativo à sua vida contemplativa. Assim, muitos indivíduos cultos rejeitam o fato de que o equilíbrio entre coexistência e cooperação é um sinal de cultura. Quanto ao especialismo, eis suas principais deficiências intrínsecas:

a) Tendência ao paroquialismo existencial, isto é, a ficar bitolado em uma esfera particular de atuação. Isso acarreta tanto distúrbios pessoais neuroses) quanto sociais (pobreza de comunicação), porque o indivíduo,
não conseguindo lidar com aquilo que é diferente (conhecimentos, objetos, pessoas, situações), acaba se perturbando e se igualando à maioria dos religiosos, ideólogos e cientistas, os quais apresentam acentuado bairrismo, grande intolerância e um complexo de superioridade que apenas denota sua inferioridade.

b) Quanto mais se aprofunda em sua especialidade, mais o perito necessita comunicar seus achados para os outros campos de atuação, ou seja, se vê obrigado a interagir com o restante da sociedade, a sair de sua Gaiola de Ouro, a dialogar com outros discursos (científico, político, religioso etc.). Isso implica na contradição verificada por Michel de Certeau: no limite, o perito tem que refrear seu desenvolvimento na especialidade para poder
transmiti-la aos não peritos, isto é, culturalizá-la, transformando-se em uma autoridade específica dentro de um contexto sócio-político que, bem ou mal, a manipula.

É justamente esse teor manipulativo o que mais se constata quando analisamos com maior acuidade o modus operandi social. As elites (econômica, científica, religiosa etc.), instintivamente, para garantir sua sobrevivência, modulam a estrutura da sociedade conforme seus interesses particulares, e para que estes interesses sejam concretizados, é mister que a massa não consiga uma expansão considerável de sua cultura. Existem alguns mecanismos reguladores para que, no máximo, os cidadãos consigam um estado de semicultura: o que mais salta aos olhos é a mídia, que entope a todos com uma vastidão de informações superficiais, as quais, numa escala de 0 a 100, não alcançam mais do que alguns pontos na explicação das causas e conseqüências reais dos fatos veiculados. Assim, a cultura da cultura inútil torna-se onipresente: o vidiotismo, o radiotismo, o bibliotismo, o internetiotismo, são exemplos do idiotismo em sua forma contemporânea, de “vanguarda”.

Então, como aliar estes dois imperativos (cultura e especialidade) sem cair em suas armadilhas internas?

Primeiro, tentando seguir o atual consenso quanto ao que é possuir uma cultura geral, segundo Abbagnano:

a) Aceitar as coisas novas, porém, verificando se elas realmente são melhores do que as que já se têm;

b) Estar aberto ao mundo, interagindo com o maior número possível de idéias e crenças, sem ter que necessariamente acatá-las, isto é, já que o agir é quase sempre considerado como ideológico, que seja então um agir pautado muito mais numa ideologia própria do que numa externa;

c) Usar plenamente a capacidade de abstração, confrontando a própria visão de mundo com as demais, exercendo com lucidez o poder de escolha. Em suma, ter uma conduta de vida perene, unindo passado (memória
histórica), presente (ciência experimental) e futuro (abstração filosófica).

Segundo, aceitando o fato de que, para funcionar no mundo contemporâ-neo, é preciso encarar de frente a necessidade do “onde me encaixo”, isto é, desenvolver uma especialidade, de preferência na área onde se tem mais interesse, mais motivação, que é o combustível básico para qualquer ação produtiva. Concomitantemente, ir correlacionando os pontos de interseção com as demais áreas, visando o maior intercâmbio possível (complementação). Ainda em paralelo, verificar também os pontos discordantes, fortalecendo-se na apreensão das ambigüidades e paradoxos inerentes ao mundo, e assim conseguir desenvolver outras especialidades, jamais se esquecendo das duas principais: viver e amar.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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