Fins

A questão do finalismo é um dos tópicos mais interessantes da indagação filosófica. A teleologia1 é inerente ao Ser ou apenas uma construção humana? Pode o universo ser livre de objetivos? O que é um objetivo? Até que ponto procuramos fugir do inexplicável nos escondendo atrás de falsas motivações? Buscar possíveis respostas para estas perguntas – o “para quê” estarmos neste planeta específico (Terra), participando deste emaranhado intersubjetivo (mundo) – torna-se, para nós, um “fim”.

Onde vamos chegar?! Essa é uma pergunta-exclamação usada quase sempre para expressar indignação perante fatos hediondos, mas que na verdade deriva de um questionamento mais profundo, com o qual o homem vem se debatendo há milênios: qual é a finalidade da minha vida?

É um fato, para o homem, a sua extrema necessidade de saber aonde chegará o seu caminho; ele se preocupa mais com aquilo que lhe advirá do que com aquilo que lhe advém, antecipando-se às coisas ao invés de fluir com as mesmas.

Da afirmação aristotélica de que tudo concorre para uma determinada finalidade, passando pela teleologia teológica de Tomás de Aquino, pelo conceito “maquiavélico” de Maquiavel – segundo o qual os meios justificam os fins – e chegando aos trabalhos dos finalistas contemporâneos, é difundida a crença de que a existência percorre uma trilha rumo a um objetivo (escatologia).

Falar em finalidade implica em falar em seu alterego, a causalidade. Assim, fortaleceu-se o binômio causa-fim em detrimento do trinômio causa-meio-fim, no qual o elemento central (meio) talvez seja aquele que verdadeiramente interesse a nós. Por quê? Ora, se realmente nosso destino é alcançar um fim, qualquer que seja, como seria o depois? Duas direções aí se avultariam, uma um tanto quanto hedonista2, outra, no mínimo, discutível: ou vivenciaríamos um gozo infinito ou, após o ápice, voltaríamos ao início, apenas para percorrer o caminho novamente, num eterno retorno

Isso revela a insegurança humana: preferimos nos enclausurar em nossas explicações do que conviver com o desconhecido, com o indeterminado. Pobre homem! Não vê que o milagre maior é justamente aquilo que ainda não se sabe, porque, se o soubesse de antemão, onde estaria a graça, a maravilha de descortinar o possível?

É quase insuportável imaginar um universo sem objetivos (segundo Simpson, a evolução orgânica não possui objetivos gerais nem específicos). Por isso, o homem constrói seu mundo pautado em planos e diretrizes, visando alcançar os seus objetivos e acabando, melancolicamente, por se tornar escravo deles. E o que é um objetivo senão o prenúncio de um outro? Seria criancice sair por aí dizendo às pessoas que se livrem de suas pretensões mediatas e imediatas devido ao caos que isso com certeza geraria, mas também é infantil forçar o universo a ser o espelho do homem, isto é, um ser ávido para atingir suas “metas”. O Kosmos não é o departamento de vendas de uma grande empresa.

Daí a lucidez da proposta de Chestov: se a nossa existência não possui uma finalidade pré-estabelecida, nada melhor do que permitir que a “voz da consciência” – os sussurros do divino em nossa habitual algazarra mental – dirija nossos passos, mesmo que aleatórios. Pascal alertou para a estupidez de procurarmos a causa ou o fim: cabe-nos o meio e não as extremidades, por sermos a interseção do finito com o infinito. Sábias, também, as palavras de Chuang Tzu: “No seio do Tao, a era mais longínqua não se encontra a maior distância do que o momento que acaba de transcorrer 3“.
Fim.

1 Termo criado por Wolff para indicar “a parte da filosofia natural que explica os fins das coisas”. Abbagnano (Dicionário de Filosofia)

2 Interessante a inversão religiosa: o hedonismo terreno é pecaminoso, não o sendo o celestial (como se, no paraíso, o hedonismo deixasse de ser ele mesmo).

3 NORMAND, Henry; Os Mestres do TAO; 188 p.; Editora Pensamento; São Paulo; 1985

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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