Elogio da espontaneidade

Uma das formas mais emblemáticas de simbolizar o homem contemporâneo é aquela que o mostra andando de um lado para outro com bolas de chumbo atadas aos pés. Este peso – representado pelos nomes dinheiro, bens, sucesso, entretenimento, poder – imposto pela sociedade
e passivamente aceito pelo indivíduo, faz dele um eterno insatisfeito e nauseabundo existencial.

Por que isso acontece? O que está por trás dessa indolência, dessa falta de criatividade? Até que ponto o homem faz jus à afirmação de que, para o sistema – qualquer que seja –, ele não passa de um índice estatístico?

Costumamos designar a Idade Média como um período obscuro, confirmando a tendência da época posterior, arrogantemente, atacar a importância da anterior. Porém, em que bases formulamos esse juízo? É evidente que o mundo medieval cometeu seus “pecados” (inquisição, cruzadas, escravidão, entre outros), mas, em certos aspectos, talvez estejamos pior do que antes. Por exemplo: com a fragmentação do conhecimento, a partir de Descartes, o advento do capitalismo e a revolução industrial, o homem, na ânsia de a tudo dominar, passou da condição de integrante para opressor da natureza, causando um desequilíbrio ecológico brutal. Há 500 anos, o respeito à natureza era muito maior; nisso, estamos mais “atrasados” do que na época medieval.

O que isso tem haver com a espontaneidade? A relação mais direta que podemos fazer refere-se ao momento em que o homem decidiu distanciar-se das coisas (submetendo-se ao método científico sujeito-objeto) e colocar-se num nível superior (subjugando ainda mais os entes, inclusive os próprios semelhantes). Com essa atitude, a exacerbação da guerra, dos desníveis sociais e o desenvolvimento da refinada tecnologia atual foi uma questão de tempo, sendo a última – quando mal interpretada e usada – a maior fomentadora da ilusão humana de querer controlar minuciosamente sua vida e, pior ainda, achar que tem o direito de dominar a existência alheia.

Por ficar muito preso a planos e previsões, o homem alimenta exageradamente o controle, deixando a espontaneidade subnutrida. Porém, a vida não pode ser totalmente controlada, monitorada, dissecada
e colocada a serviço exclusivo do ser humano; fazer isso é inverter o fluxo natural da existência, que é imprevisível e no qual o homem desempenha um papel que não é “mais elevado” que o dos outros seres, como o nosso pequeno ego gosta de imaginar.

O cientista-materialista que está em nós objetiva a repetição, a uniformidade, a sistematização; o poeta-espiritualista quer a singularidade, a pluralidade, a criatividade. O homem deseja o controle; a vida busca a espontaneidade. Veja a criança, como é feliz por mover-se no agora e ficar maravilhada com o novo; veja o adulto, como é infeliz por fixar-se no ontem/amanhã e desiludir-se com o velho: velhos preconceitos, velhos paradigmas, velhos desejos sublimados, velhos sonhos nunca realizados. Lembro-me de ter escutado uma pergunta profundamente espirituosa: você já viveu 10.000 dias ou o mesmo dia 10.000 vezes? Faz pensar.

Se a espontaneidade descortina o que há de ambrosia nas coisas, por que insistimos em considerá-la algo secundário, sem importância? Até quando continuaremos com a propensão míope de apenas valorizar o útil, o “economicamente viável”, “a importante ferramenta evolutiva”, o “indispensável instrumento tecnológico” e os demais mitos da nossa atual existência mecanizada?

Sim, a procura pelo útil é parte importante da vida de quem está hipnotizado pelos ditames sociais contemporâneos. Porém, aquele que reduz o mundo apenas ao seu aspecto utilitário acaba se tornando miserável. Ao confundir utilidade com realidade, o homem equivoca-se, achando que todas as coisas ou acontecimentos necessariamente têm de exercer alguma função específica. Ao ocupar todo o seu tempo com perguntas e em maneiras de respondê-las, esquece de viver.

O dicionário define a espontaneidade como a vontade ou a ação livre, não dirigida, natural, ou seja, sem segundas intenções. Mesmo a ciência, em última instância, pauta-se pela espontaneidade, visto que a maioria das descobertas e inventos dá-se através de alguma intuição, e a partir dela é que o raciocínio atua. Portanto, é difícil contestar a afirmação dos místicos de todas as épocas – com a qual os físicos quânticos estão começando a concordar – de que a racionalidade e o controle são desdobramentos da intuição e da espontaneidade. Não é à-toa que o interesse pelo misticismo cresceu entre muitos cientistas, principalmente pelo Taoísmo, em virtude de sua postura espontânea, de abandono frente à vida.        

Diante disso tudo, fica a pergunta: como escapar das grades do extremo utilitarismo da nossa era? Uma das chaves para fruir o dia-a-dia com mais prazer e pacificação talvez seja ficar atento àqueles momentos e movimentos fugazes aonde se manifesta a espontaneidade: um encontro imprevisto com uma pessoa amiga, uma anedota inesperada num carrancudo texto científico, um presente dado ou recebido fora de uma data convencional, um sorriso de um desconhecido, um insight sobre alguma questão íntima… No parâmetro do tempo sua duração é breve, mas na escala da alma seu impacto é profundo.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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