Coexistencialidade e cooperatividade

Pode haver equilíbrio entre a vontade do indivíduo e as inúmeras solicitações da sociedade? Deve uma ter primazia sobre as outras? São questionamentos antigos ao redor dos quais foram elaboradas diversas – e, muitas vezes, conflitantes – teorias e práticas derivadas, formando, ao longo do tempo, um complexo mosaico de fórmulas com seus respectivos modi vivendi.

As livrarias, tanto as tradicionais quanto as virtuais, estão recheadas de obras de cunho sociológico resultantes das pesquisas, reflexões e convicções de centenas de pesquisadores-pensadores espalhados na geografia e no tempo. Da Platonópolis almejada por Plotino ao conflito de classes marxista, tanto já se falou e tanto há ainda para se falar sobre indivíduo e sociedade, que confesso sentir um certo – e talvez natural – conflito interno: concomitante ao sentimento de ser um anão perto de um Weber ou um Simmel, sei que intrinsecamente não sou tão diferente deles; portanto, também posso e devo transmitir minha visão sociológica, por mais modesta que seja. Afinal, se todos temos acesso ao lugar de onde surgiram as idéias e práticas do anarquismo, do capitalismo, do contratualismo, do socialismo e demais “ismos”, podemos oferecer nossa própria perspectiva dos fatos, sem medo de eventualmente repetir ou comentar de forma prosaica aquilo que outros já expuseram com brilhantismo, porque determinadas leis e conceitos universais são imutáveis, mas revestem-se de novidade conforme a capacidade do emitente em transmiti-los.

Em primeiro lugar, é útil eleger um parâmetro em nossa análise da tipologia social, para evitar cair no erro grosseiro da dicotomia ou maniqueísmo, pois deve ficar bem claro que o que ocorre, em qualquer classificação sociológica, é uma variação gradativa entre dois limites: há quem diga que um quadro estatístico não deve ser branco ou preto, mas cinza…

Vejamos. Num extremo estão os indivíduos com perfil coexistencialista e, no outro, o grupo formado pelos cooperativistas. O que esses grupos representam? Em que instâncias da sociedade se manifestam, quais as ideologias e/ou escolas filosóficas que os sustentam e quais são seus valores?

Têm ênfase coexistencial os profissionais liberais, artistas, escritores, free lancers, artesãos, pesquisadores independentes, pequenos agricultores, comerciantes e prestadores de serviços. Já a cooperatividade verifica-se nas instituições, governo, médias e grandes empresas, no chamado Terceiro Setor, enfim, em qualquer local onde um conjunto de pessoas cooperam alguma coisa, concreta ou abstrata.

Possuem caráter coexistencial as seguintes ideologias e escolas filosóficas: Existencialismo, Taoísmo, Romantismo, Transcendentalismo (Emerson), Perspectivismo, Protestantismo, Anarquismo e Capitalismo. Têm perfil cooperativista o Marxismo, Idealismo (Hegel), Personalismo (Mounier), Confucionismo, Catolicismo, Comunismo, Cooperativismo e o Socialismo.

À coexistencialidade podemos atribuir os valores yang: individualismo, autoconfiança, heterogeneidade e o laissez-faire. À cooperatividade, associamos os elementos yin: coletivismo, heteroconfiança, homoge-neidade e o controle.

Na coexistencialidade encontra-se um profundo problema individual e, por ressonância, social. A pessoa, na maioria das vezes, não se permite observar as coisas também sob a ótica do outro, ficando presa à pequenez de sua parcialidade. Entretanto, se tomarmos isso como algo absoluto (ver as coisas sob a ótica alheia), o conceito de individualidade se esvai, porque a pessoa – se tem pretensão de um dia constituir-se numa singularidade autêntica  – deve possuir um self que a diferencie das demais, portanto um self parcial…

Outro impasse intrínseco à coexistencialidade é a sua propensão à misantropia, à falta de solidariedade, fazendo com que os indivíduos se auto-enclausurem em suas torres de marfim. Isso se dá porque muitas vezes esquecemos este fato simples: ao mesmo tempo que somos indivíduos singulares, com todos os direitos subjacentes, também somos componentes da humanidade, com todos os deveres implicados.

A cooperatividade, por sua vez, apresenta dilemas talvez até mais explícitos. Basta observar que o tipo de relação entre as pessoas normalmente se dá através da confrontação, da subordinação e da cooperação. Seguindo estes tipos seqüencialmente, veremos que o confronto gera subordinação. Com o tempo, o remorso (por parte dos dominantes) e/ou o ressentimento (por parte dos dominados) fazem surgir o mito da igualdade (constitui-se num mito porque nossa essência e atributos são iguais, mas nossa existência e o conseqüente desenvolvimento dos atributos nunca são os mesmos). Daí aos sistemas cooperativistas é um passo (Socialismo, Comunismo, Cooperativismo).

Muitos consideram a cooperatividade uma panacéia, mas outros a vêem apenas como um paliativo, porque, baseando-se no mito da igualdade, acaba produzindo o confronto, o qual, por sua vez, gera subordinação (camuflada de variadas formas: assistencialismo, ignorância, medo), formando um círculo vicioso.

Outro problema relativo à cooperatividade é o trinômio convivência-conveniência-conivência. A convivência, quando muito próxima e freqüente, muitas vezes sustenta-se na conveniência (todos abdicam de parte de sua liberdade para, através do gregarismo exacerbado, garantir a satisfação de suas necessidades básicas ou sutis). E, para perpetuar o esquema, a conivência com os problemas que surgem tende a crescer, sendo tratados apenas superficialmente. 

Mas uma grande ligação entre a Psicologia Individual e a Sociologia é verificada nos problemas de ajustamento dos indivíduos, primeiro em suas respectivas carreiras profissionais e, depois, na forma escolhida de trabalho (coexistencial ou cooperativo). Quanto ao primeiro item, nota-se que grande parte das pessoas não se sentem realizadas em suas profissões, por não estarem trabalhando naquilo que gostariam; vê-se o comerciante que gostaria de trabalhar com mecânica de veículos, entretanto continua com seu bazar; ou o engenheiro que, no fundo, queria ser músico, embora insista em construir prédios; exemplos não faltam. Mesmo entre aqueles que encontram satisfação no que fazem, muitos têm problemas em relação à forma como trabalham. Assim, o escritor com tendência coexistencialista pode se ver obrigado a continuar prestando serviços a uma grande empresa jornalística; ou o free lancer, que gostaria de ter um emprego e desfrutar do convívio permanente com certos colegas de trabalho, vive “pulando de galho em galho”. Ser sincero e coerente consigo mesmo é pré-requisito para uma auto e heteroconvivência sadia.  

Aqui vemos que o meio cultural influi significativamente nas escolhas do indivíduo, mas é este, em última instância, quem decide sobre o próprio destino; o eterno ser ou não ser shakespeariano tem menos a ver com a coletividade do que com a pessoa que a integra. Os grandes conflitos sociais são, em grande parte, reflexo ou somatório dos conflitos íntimos de cada um de nós. Colocar a culpa pelas dificuldades apenas naquilo que
é exterior (governo, economia, família etc.) é o meio mais fácil e rápido para a perpetuação do auto-engano. 

Numa análise mais acurada, podemos perceber claramente que a coexistencialidade e a cooperatividade são contíguas, mudando apenas a ênfase que cada uma recebe. Vemos exemplos disso nas instituições em geral, que se baseiam na cooperatividade, mas seus departamentos coexistem; e nos profissionais liberais, que parecem coexistir dispersos, mas formam um grupo cooperativo com o todo social.

Temos, em síntese, que na maioria das culturas ocorre uma bifurcação de enfoque da realidade, uma no sentido coexistencial e outra no sentido cooperativista, sendo estas as grandes modeladoras do modo de agir social. E o que faz um indivíduo ser mais propenso a uma do que à outra? Temperamento, genética, diferenciação, cultura, reminiscência (Platão), experiências, são fatores que contribuem na afinidade com um destes dois modos. Esta afinidade, contudo, pode mudar com o tempo 
e é bom que isso aconteça, pois assim o indivíduo, ao ver o outro lado da moeda, acaba ampliando sua visão da realidade.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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