A Verdade

In te redi: in interiore homine habitat veritas. (Santo Agostinho)

A verdade não “habita” apenas o “homem interior”, ou, antes,
não existe homem interior. O homem está no mundo,
é no mundo que ele se conhece. (Merleau-Ponty)

A questão do que é ou não verdadeiro é tão ampla quanto às divergências a respeito do tema. Ceticismo e Teologia, no passado, Iluminismo e a Escola de Frankfurt, no presente, são alguns dos representantes que atestam a diversidade de idéias em relação aos critérios de eleição da verdade.

Ao longo do tempo, formaram-se alguns conceitos determinantes daquilo que se pode considerar a verdade. Por serem muitas vezes vistos erroneamente como antagônicos ao invés de complementares, deve-se estar atento à importância de o indivíduo deixar em suspenso qualquer julgamento preconcebido do que seja a verdade e, concomitantemente, permitir a influência do meio, mas não se pode esquecer que suas verdades essenciais derivam de si próprio. Assim, ele terá mais chance de perceber as verdades universais (elas existem?).

Em relação à verdade, primeiro é importante fazer a distinção entre definição de verdade e critério de verdade. Pode-se definir a verdade afirmando o que ela é ou não é; porém, em toda afirmação está embutido algum critério utilizado em sua formulação. Abbagnano, em seu Dicionário de Filosofia, enumera cinco conceitos (definições e/ou critérios) básicos do que vem a ser a verdade: correspondência, revelação, conformidade, coerência e utilidade. Conheçamos, en passant, cada um.

A verdade como correspondência é a mais usual e remonta à Antigüidade, onde se define que “verdadeiro é o discurso que expressa as coisas como são e falso aquele que as expressam como não são” (Platão). Como revelação, a verdade é a voz empírica e teológica que a sustenta, a primeira dizendo que a verdade se mostra de imediato pela sensação ou intuição, a segunda afirmando que uma fonte transcendental revela ao homem suas verdades eternas. A verdade é conformidade quando as coisas têm de obedecer a um conceito ou regra específicos. Como coerência, surge ao sustentar que aquilo que é contraditório não pode ser real ou verídico. Como utilidade, consideramos verdadeiro somente o que possui um fim útil à humanidade.

Hoje a idéia mais aceita do que seja a verdade é a de que ela espelha a validade ou eficácia do processo da cognição – ou seja, seu êxito –, pretendendo prescindir da distinção entre definição e critério de verdade. Porém, ao fazer isso, aproximamo-nos do critério de utilidade já visto, sendo, portanto, um conceito parcial e limitado. Não poderia deixar de ser, porque esta concepção apenas reflete o claustro da contemporaneidade, totalmente dominada pelo relógio, pelos números e por novos ceticismos.

A verdade seria uma terra sem acessos, para alguns, ou com múltiplos caminhos para ser alcançada, segundo outros. Enquanto José afirma trabalhar com verdades relativas de ponta, Joaquim constata que muitas destas são verdades imutáveis com pontas relativas.

Neste debate, não podemos deixar de citar a famosa alegoria hindu: tateando um elefante no escuro, ao encontrar as trombas, um afirma serem elas a verdade; outro, ao agarrar as orelhas, diz que a verdade nelas está; um terceiro reclama que a verdade é a pata do animal; e assim por diante. Com o tempo (milênios?), descobrem que a verdade é o mamífero inteiro. Depois, percebem que a verdade é a manada para, logo após, vislumbrarem que a verdade é toda a selva

Isto mostra que, na verdade, a verdade não se relativiza nem se absolutiza mas apenas se amplia imutavelmente. O produto (de elucidação da verdade) é relativo; o processo (de buscá-la) é absoluto.
Mutatis mutandi.

Diante destas considerações, onde fica o pobre indivíduo? Terá ele a chance de encontrar a verdade? E se porventura achá-la, conseguirá “praticá-la” neste mundo dito humano? Esta, definitivamente, não é uma questão para se responder de pronto, mas para ser vivenciada singularmente por todos os indivíduos a cada instante e de modos diferentes, sendo um dos principais eixos em torno dos quais gira a existência filosofante.

Pelo exposto, fica evidente (a evidência é um critério de verdade!) que a sociedade está repleta de verdades – ou melhor, de convenções/imposições – para todos os gostos, ficando o indivíduo livre para optar entre aceitar, repudiar ou tentar transformar o que aí está. Independente de escolhas circunstanciais, o importante é cada um sempre procurar aquela cifra que permite a convivência humana e a faz tão bela e verdadeira quando desobstruímos seu manifestar: o amor.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Ensaios-Pe-Vermelho-Luiz-Augusto-Dzis/dp/1516934091

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